A CRUZ DE FOGO



Ouviu algumas palavras soltas na escuridão da falta de sentidos:
“Apagaram a força das chamas... Caminharam na fornalha... Venceram sacerdotes do fogo... Homens dos quais o mundo não era digno”.
Um estilhaço de imaginação cortou a escuridão como um espelho refletindo uma imagem nas trevas; a imagem, um arbusto verde e vistoso que ardia em chamas violentas, porém a planta não se consumia. As palavras retornaram em sua mente com uma derradeira frase:
“Levanta-te!”.
A voz era a de Adalberto Ramos repassando trechos das histórias relatadas no livro sagrado e de repente a escuridão se acendeu poderosamente, havia fogo por toda parte, mas uma luz incandescente surgiu vinda do nada.
Estava novamente no inferno criado por seu mestre e a visão de um futuro com Eliana tinha acendido a vontade de permanecer vivo e lutar, não permitiria que Draek vencesse esta segunda batalha como venceu a primeira. Levantou a cabeça e encarou seu antigo mestre que mantinha uma feição espantada e febril com a cena.
Donovam já estava se regozijando com a vitória conseguida ali quando algo diferente apareceu; as chamas tinham coberto o corpo inerte de seu aluno, mas ao contrário do que deveria acontecer; elas não o consumiram; as labaredas se reorganizaram por vontade própria, Donovam não tinha ordenado nada a elas. As chamas de toda a sala concentraram-se num único ponto, bem à frente de Alam que ainda estava deitado no chão.
O dragão perdeu o controle do fogo que ele mesmo tinha conclamado ao confronto e tal elemento formou uma imagem bem diante de seus olhos. Uma enorme cruz.
Donovam ficou tão abismado que pensou que ia cair; deu alguns passos para trás, imaginava que aquilo pudesse ser uma miragem produzida pelo efeito mortal do veneno, mas sabia que não se tratava disso; aquela cruz estava de fato ali entre ele e seu aluno e representava algo que ele não discernia.
Naquele instante Draek percebeu que Alam ainda deitado estava de olhos abertos e fixados nele, não entendia como era possível que algo como aquilo estivesse acontecendo; estendeu a mão em direção à cruz tentando desfazê-la, mas era inútil, o fogo não lhe obedecia mais.
_ Obedeça-me! _ gritou furiosamente_ Eu estou ordenando!_ Estendeu ambas as mãos para a cruz flamejante, mas sua influência sobre o elemento havia acabado.
Ele sabia que o arauto não tinha tanto conhecimento nos caminhos do fogo a ponto de domar tamanha massa de magia, portanto, não podia ser o jovem quem estava controlando as chamas, era como se algo maior, alguma força superior à natureza ou mesmo a mística magia elemental estivesse ali presente e em estado de proteção ao jovem Alam; por algum motivo somente uma palavra vinha à mente do mestre dragão mago. Deus.
Alam se colocou de pé e viu o outro tão assustado que mal podia se controlar, via Donovam com as mãos estendidas gritando histericamente:
_ Maldita cruz! Desfaça-se! Eu ordeno!
Mas Alam não via absolutamente nada e sem mais nem menos todo o fogo desapareceu, a sala se apagou misteriosamente e Donovam continuava em seu ataque de fúria contra um inimigo que o arauto não via.
O mestre parecia ter perdido completamente a sanidade, estava em estado de frenesi e levou as mãos à cabeça, pôs-se de joelhos no chão em uma gritaria insana que Alam preferia não ter testemunhado; ele gritava:
_ Não! Nem você vai me vencer, você não pode, ninguém pode! Eu sou o dragão do fogo. Eu sou o maior de todos os magos da terra. Eu sou um deus!_A última frase foi um urro desesperado e então finalmente se calou.
Alam correu para tentar socorrê-lo, mas o tempo estava contra ele o veneno não era a causa do surto psicótico de Draek, ele nunca ministraria a si mesmo algo que causasse tanta dor e desespero, certamente desejava ser abatido de forma muito mais suave, mas alguma coisa saiu errado. O arauto tomou a pulsação do outro, mas ele já não respondia, não havia respiração, o coração não batia; estava morto. Por alguns minutos o aluno tentou todas as técnicas de ressuscitação que conhecia, nenhuma delas surtiu o menor efeito.
A dor foi tão profunda que o jovem desabou em lágrimas ao lado do corpo de seu antigo mestre; talvez o homem mais preparado intelectualmente para realizar boas obras que ele conheceu, um homem que viveu toda a vida na vanguarda de seu tempo, mas que escolhera trilhar o caminho da ganância, da arrogância e do egoísmo. A corrupção dentro de Draek tinha aflorado de tal forma que ele não conseguiu manusear o poder que tentava usurpar e como acontece nestas ocasiões, este mesmo poder terminou por corrompê-lo absolutamente, alma, corpo e espírito. A única característica latente dentro do ser humano que deve ser mantida sempre aprisionada veio à tona; o mal. E este mal o dominou e consumiu.
Alam chorou copiosamente por muito tempo ali, em seguida quando já não tinha mais lágrimas para derramar permaneceu em silêncio por mais um longo tempo e por fim deixou o palácio do Dragão ainda com seu coração em silêncio e sua mente de luto; sabia que os partidários de Donovam foram instruídos para ir até aquele lugar e recolher os corpos de Alam e Draek, mas eles só achariam um único corpo e para Alam já não importava mais o que seria feito a partir dali.
Um ciclo tinha se fechado, uma era havia finalmente terminado; uma era de sombras, fúria e muita maldade. Tudo o que ele queria agora era voltar para sua vida normal, não procuraria Cortez, não procuraria as pessoas com quem manteve contatos profissionais ou sociais, pretendia sair da cidade e do país; voltar ao Brasil, pedir Eliana em casamento e tornar real a revelação que teve no momento de desespero.
Ele sentia pena do modo trágico como Donovam terminou a caminhada da vida e sentiu-se um pouco culpado por não ter conseguido puxá-lo para fora de tudo aquilo, mas Donovam Draek pagou caro pelas escolhas que fez e isso não podia ser mudado; aquele que semeia vento sempre colherá tempestade e foi o que ocorreu.
Ao sair da casa Alam ainda caminhando em direção a seu carro só conseguia pensar que o preço foi alto demais, com a destruição da casa da Família Ramos, a quase morte de Cortez, a inutilização misteriosa de Phyros e o sacrifício e morte de Draek; mas agora Alam sabia que sempre é tempo de recomeçar; havia conhecido um Deus verdadeiramente misericordioso mostrado por Adalberto Ramos; o Deus que tinha retirado toda a culpa de suas costas e mostrado um caminho de abundância em qualidade de vida e felicidade, o próprio Alam já tinha dado os primeiros passos rumo a essa vida melhor e pacata a qual pretendia consolidar com a pessoa que era a mulher de sua vida.
Ele voltaria para sua casa e depois procuraria Eliana e a família que àquela hora já deveriam estar a par da grande soma de dinheiro que teriam de administrar para ajudar outras pessoas, pessoas necessitadas, física ou espiritualmente. Quanto a ele e Eliana o futuro esperava-os e só Deus poderia dizer como seria.
No final das contas, surpreendentemente, estava grato por todas as coisas que lhe aconteceram desde a queda na torre, passando pelo renascimento no Rio até um segundo atrás, o momento em que conseguiu dizer para si mesmo que todo aquele pesadelo chegou ao fim.
Ele soube que não havia lutado sozinho, e que tudo aquilo tinha acontecido para um propósito maior; só Deus poderia dizer o que aconteceria com a cidade de Ottawa se o mal em Donovam realmente conseguisse realizar seus intentos; quanto sangue seria derramado desnecessariamente; no fundo Alam fora colocado no caminho para ser usado a fim de não permitir tal coisa e só agora ele entendia isso verdadeiramente.
A ordem continuaria sem Vesúvio, sem Donovam Draek e sem Alam, mas nada do que eles fizessem era da conta dele e a vida se descortinava à frente convidativa e propícia para um bem que nunca tinha experimentado antes.
Alam entrou e ligou o carro, pisou no acelerador e saiu em disparada rumo à felicidade que por fim o aguardava.


FIM.

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