HOMENS NA FORNALHA


Alam parou o Mercedes junto da calçada novamente, perto da frente da igreja; desceu e caminhou pelo gramado até a porta. Todos os membros já tinham deixado o lugar, mas a porta continuava aberta; a visita do mago espanhol ainda o incomodava na mente, mas preferia não pensar naquilo, ao menos por hora.
Entrando no templo ele viu sentado numa das cadeiras junto ao púlpito, Adalberto.
_ Olá! O que houve?_ perguntou.
O pastor pareceu não muito seguro quando sorriu e respondeu.
_ Um homem esteve aqui procurando por você.
_ Eu sei, encontrei com ele e conversamos um pouco.
_Quem é ele?
_Juan Cortez.
Adalberto repetiu o nome para fixá-lo, e perguntou:
_ E o que ele queria?
_ Colocar idéias estapafúrdias na minha cabeça.
_ Como assim?_ indagou Ramos.
Alam suspirou e olhou vagamente para o teto antes de continuar:
_ Ele quer que eu desafie a ordem; tenho certeza de que Cortez tem arquitetado algum plano, e quer de alguma forma me jogar numa armadilha, numa fornalha. E o pior é que eu não sei como vou conseguir evitar esse confronto; sinto-me um tanto perdido.
Adalberto se levantou e começou a andar na direção da porta.
_Sente-se aí um instante eu já volto._ Disse.
Ele fechou as portas da igreja e voltou rapidamente após trancá-las; sentou ao lado de Alam no banco e iniciou um novo relato.
_É incrível sua escolha de palavras_ Ramos disse _ Tenho uma história para contar, mas antes quero deixar claro que certas batalhas não podem ser desviadas de nossas vidas. Caso seja esse o seu caminho então você deve saber que nunca mais você vai enfrentar qualquer batalha em sua vida sozinho. Jamais!
O jovem passou as palmas das mãos nos olhos como que para espantar o fantasma de uma dor de cabeça.
_Sinto muito, mas não entendo._Rebateu Alam_ Acostumei a ser sozinho; na ordem nós aprendemos que a força está dentro de nós mesmos; sempre agi dessa forma e alcancei grandes feitos assim.
Ramos sorriu.
_ Sim, mas pare um momento e pense bem, existe uma coisa que você precisa começar a considerar, a ordem não tem mais nada em você, creia que agora não há nenhuma relação entre sua vida e a vida daqueles homens.
_ Eu sei, e acredito, mas só que é um pouco difícil para mim às vezes; eu vi a força deles, fiz parte disso e não sei se vou conseguir vencer tudo isso; minha mente me trai trazendo lembranças de meus antigos atos e conhecimentos.
_Não posso dizer que sei o que você está passando, mas posso dizer que isso é normal, seu espírito agora foi totalmente recriado, tudo de mau que existia nele morreu e agora você possui um novo espírito, porém seu corpo e mente ainda são os mesmos de antes e cabe a você domá-los; eles vão se esforçar para mostrar o que você fez e tentar provar que não houve mudança alguma; mas houve. Agora você possui um espírito novo e puro e a partir dele você vai tornar tudo em sua vida novo e puro também; ao contrário do que muitos pensam, não há nada de sobrenatural nisso, não vai haver pirotecnia alguma, porque como você bem sabe tudo isso você já possuía antes e pode ser encontrado com certa facilidade de diversas formas ao redor do mundo, mas agora suas batalhas serão travadas com uma única arma; a sua fé.
Alam considerava tudo que Adalberto Ramos o estava dizendo e realmente não sentia nenhuma mudança em si mesmo, ainda não se sentia digno e ou justo o suficiente para ter um relacionamento com aquele Deus de quem Ramos falava.
_Sei que você é uma pessoa digna e honrada_ Iniciou o jovem novamente_ e creio no que você está me falando, mas como vou poder combater forças naturais tão concretas quanto o fogo simplesmente com a minha fé; pode parecer mentira, mas já vi Donovam incinerar pessoas. Não me sinto digno de receber ajuda de Deus.
Novamente sorrindo Ramos respondeu:
_ Isso é ótimo, porque nunca seremos por nós mesmos, dignos de coisa alguma de Deus, mas Ele por seu infinito amor resolveu que ajudaria de todas as formas possíveis e impossíveis; imagináveis e inimagináveis a todos que se colocassem na posição de filhos, aceitando ao próprio Filho de Deus em suas vidas, como você já fez; desse modo você já pode se considerar digno e justificado por causa de Cristo; é assim que Ele quer que você se sinta, Ele não quer uma pessoa se sentindo um nada e sim uma pessoa que se considere amada, feliz e em paz porque todo o preço por nossos maus atos já foi muito bem pago no Cristo. Agora quero que você saiba que a fé é tão real quanto o fogo que você vê, o fato de não podermos ver a fé não significa em absoluto que ela não exista, aliás, é justamente isso que a torna mais real que todas as outras coisas, porque tudo aquilo que é visível pode ser em menor ou maior grau imitado ou ilusionado, mas como se usar a arte do ilusionismo em algo que não se pode ver, tendo em vista que essa arte necessariamente precisa do sentido da visão para ter efeito enganoso? Essa mesma fé invisível é sempre provada por alguma realização; o livro sagrado chama de obras. Se você tiver fé para vencer o fogo então vá e vença o fogo.
Alam se levantou e caminhou de um lado para o outro.
_ Vou precisar de mais tempo, não quero mais me envolver em combate algum, quero viajar, voltar ao Brasil; mas por outro lado não sei se devo fazer isso ou se realmente tenho que impedir a ordem de realizar seu intento de unificação, pois se eu não fizer quem o fará?
_Como eu disse, vou lhe contar uma história e espero que ajude de alguma forma. Falou Adalberto.
E iniciou:
_Aproximadamente no ano de 606 ac, o império babilônico dominava o mundo de então, o rei desse império cujo nome é muito conhecido até os dias atuais chamava-se Nabucodonosor II, este rei havia subjugado o povo de Israel e muitos foram levados para o cativeiro. Dentre os cativos estavam três jovens que tiveram seus nomes escritos para sempre na história, Hananias, Misael e Azarias, todos pertencentes à chamada tribo de Judá.
Adalberto se interrompeu e coçou o queixo para ter certeza de que Alam o estava ouvindo, em seguida continuou:
_ A Babilônia era uma cidade de beleza e luxo, seus palácios e jardins suspensos se tornaram obras tão grandiosas que foram contados entre as sete maravilhas do mundo antigo, como você já sabe. Era cercada por imensos muros e gigantescas portas além de um profundo fosso rodeando os muros; era considerada uma cidade inexpugnável. O rio Eufrates cortava a cidade em diagonal sob os muros, fertilizando os magníficos jardins; e nessa atmosfera de grandezas é que aqueles três jovens foram mantidos. A certa altura do cativeiro por providência divina esses jovens foram postos no comando dos negócios da província da babilônia, a pedido de um quarto jovem israelita de nome Daniel, a quem o rei Nabucodonosor passara a considerar grandemente.
_Ainda não compreendo como isso pode me ajudar._Falou Alam.
_Tenha um pouco de calma e já chego onde quero, você vai ver que será muito útil porque assim como você aqueles três jovens também precisaram usar a fé para confrontar uma terrível situação.
Ao dizer isso Ramos continuou o relato.
_Nabucodonosor mandou construir uma grande estátua de si mesmo em ouro e mandou colocá-la num dos campos da província da Babilônia, feito isso, reuniu prefeitos, juízes, tesoureiros, governadores, oficiais e varias autoridades das províncias numa espécie de cerimônia para que todos soubessem do que se tratava. Quando todos estavam reunidos, o arauto real pronunciou um decreto legislado pelo próprio rei; “Quando ouvires o som dos instrumentos musicais, todos se prostrarão e adorarão a imagem de ouro que o rei mandou construir e qualquer que não se prostrar será lançado instantaneamente numa fornalha ardente”. _ Disse o arauto do rei.
Adalberto parou o relato e olhou para Alam que o encarava seriamente.
_Não se parece uma história familiar? _perguntou ao rapaz.
Sorrindo meio sem graça o jovem respondeu:
_ É, pode ser.
Ramos fez um outro comentário antes de continuar a história:
_ Eu quero que você perceba que assim como você, aqueles três jovens estavam diante da máxima autoridade no reino da Babilônia e certamente eles não se prostrariam ante a estátua; fazendo um paralelo com sua vida, vejo que você também foi por muito tempo cativo por algo que possui aparência de autoridade dentro do círculo social no qual você viveu nestes últimos dez anos e é essa lembrança que está dificultando você de perceber quem é que agora está ajudando-o em sua vida. A história que estou contando vai lhe conduzir a uma visão melhor.
Continuou:
_Tendo deixado bem claro qual era a intenção do rei com relação à estátua, todos concordaram em fazer conforme as palavras do arauto, exceto os três jovens que sabidamente não tinham por costume adorar imagem ou ídolo algum de terra ou país estrangeiro. Sabendo disso, um grupo de homens caldeus, oriundos da Caldéia, região sul da Mesopotâmia na margem oriental do rio Eufrates e que viviam na província de babilônia, denunciaram os três jovens judeus dizendo ao rei que os três não se prostrariam perante a estátua quando ouvissem o toque dos instrumentos musicais. O rei então ficou furioso com essa notícia e mandou chamar Hananias, Mizael e Azarias e perguntou-lhes se era de propósito que eles não se dobrariam a estátua de ouro; ameaçando lançá-los na fornalha: “Quem é o Deus que pode livrá-los das minhas mãos?”_ perguntou Nabucodonosor aos jovens. Eles por sua vez recusaram-se a responder qualquer coisa se limitando a dizer que o Deus a quem eles serviam iria livrá-los das mãos do rei.
Adalberto se interrompeu e fez mais um comentário:
_ Está vendo, quero que você perceba que aqueles rapazes estavam nesse momento usando de sua fé, mesmo desafiando algo muito concreto; a punição de morte por incineração na fornalha.
Alam ainda ponderava a história, mas de alguma forma estava achando que poderia retirar um importante ensinamento de tudo aquilo.
_ Prossiga, por favor. _ Pediu Alam.
Ramos prosseguiu:
_Ouvindo aquilo o rei tomado de furor ordenou que a fornalha fosse aquecida sete vezes mais do que costumeiramente e mandou que os três jovens fossem arremessados dentro dela. Os três jovens foram amarados e; a fornalha estava de tal forma aquecida que os soldados babilônicos que foram encarregados de lançar os rapazes no fogo acabaram morrendo ao chegarem muito próximo das chamas e por fim Hananias, Mizael e Azarias caíram dentro da fornalha ardente.
_ O que ouve com eles!? _ perguntou Alam visivelmente querendo saber o desfecho do relato.
_ Passado algum tempo o rei Nabucodonosor se espantou, pois viu algo estranho dentro da fornalha e perguntou aos que com ele aguardavam: “Nós não lançamos três homens amarrados dentro do fogo?”;
E responderam: “Sim, é verdade, lançamos.”
Então o rei disse: “Então por que eu vejo quatro pessoas andando dentro do fogo e as chamas não lhe causam dano algum; e a aparência de um deles é como a aparência do filho dos deuses”.
Adalberto encarou o rapaz que ouvia a história e disse:
_ Para encurtar essa história que você mesmo pode ler na integra no livro sagrado, o rei chamou os três homens de dentro do fogo e eles saíram sem nem ao menos serem tocados pelas chamas; na verdade Nabucodonosor chegou à conclusão de que Deus tinha enviado um anjo e os livros da fornalha.
_Agora entendo_ disse Alam_ você quer dizer que se eu confiar; crer, que serei livre do fogo então assim acontecerá.
_ Na verdade só estou dizendo que se creres verás a glória de Deus seja na situação que for.
Ambos foram em direção à porta e saíram da igreja trancando com a chave uma pequena porta que servia de saída lateral. No gramado Alam ofereceu carona para o amigo e o levou em casa no seu Mercedes, depois pediu um pouco mais de tempo e saiu a rodar com o automóvel pela cidade a fim de pensar a respeito do seu encontro com o mago espanhol e da conversa com o pastor Ramos.
Antes de deixar o amigo em casa Alam foi convidado a comparecer numa pequena festividade que seria realizada na residência da família Ramos, pois a filha de Adalberto estava viajando do Brasil para o Canadá e o vôo chegaria no dia seguinte ao aeroporto internacional Macdonald-Cartier em Ottawa.