MUDANÇAS E RENASCIMENTO



Alam estava saindo da sua nova casa, trocara seu luxuoso domicílio no centro de Ottawa por uma casa mais aconchegante e menos chamativa nos arredores do centro, um subúrbio ao oeste chamado Kanata, esta nova residência, porém, não menos bela e funcional do que a antiga. O tempo passou e ele não percebeu, desligou-se da ordem, ainda que de modo informal, não foi mais procurá-los e eles também não se importaram em saber mais se ele estava morto de fato ou não. Já fazia três meses que toda a vida daquele jovem mudara por completo e ele estava saindo de casa logo pela manhã para visitar o homem que ajudou a mudar as coisas na sua vida.
Como não era mais tutelado por seu antigo mestre, Alam obviamente perdera todos os privilégios que aquela posição lhe proporcionava, ou seja, não podia mais desfrutar de seu emprego antigo assessorando os executivos e alguns políticos da cidade, por consequência também não desfrutaria do volumoso salário ao qual anteriormente fazia jus; porém isso não importava, ele tinha se dedicado de tal forma a trabalhar durante os tempos de fidelidade aos ideais da ordem que já possuía um generoso fundo monetário em seu nome angariado em uma década de serviços muito bem feitos, o montante rodava o valor de cinco milhões e meio de dólares que estavam espalhados em contas nos bancos de Ottawa; George Town, capital das Ilhas Caymans e em Berna capital da Suíça; sem contar seus outros bens que estava vendendo como sua antiga casa e sua Ferrari, os quais colocou nas mãos de corretores especializados que fariam o trabalho em troca de uma boa comissão.
Alam estava muito feliz com a mudança, não pensou que pudesse sentir aquela paz de espírito na vida; seu dia a dia era muito puxado quando fazia parte dos círculos de magia e ele não percebia isso porque era algo que gostava de fazer, mas quando se pegou fora daquele universo sentiu instantaneamente a diferença.
Antes ele trabalhava em um ambiente político de muita rivalidade junto aos executivos da província e até mesmo do país, a grande maioria daquelas pessoas nem fazia idéia de que estavam lidando todos os dias com um dos mais notáveis magos da cidade; quando chegava em casa ele sempre telefonava para Don, quando não o tinha visto durante o dia ou almoçado com ele nos poucos espaços livres da agenda puxada de que dispunha para tratar de assuntos importantes sobre a unificação das casas, antes de dormir ainda se dedicava ao estudo dos livros antigos tentando decifrar literalmente todos os códigos escritos em idiomas antigos e desenhos de significados múltiplos; o estudo da magia era algo devocional, quase religioso e praticado à exaustão. Em suma, Alam possuía uma vida muito bem sucedida financeiramente e profissionalmente na mesma proporção de que era atribulada, mas não conseguia ter tempo para cuidar de si mesmo, há dez anos ele não sabia o que era ter férias, sempre que viajava era para cumprir tarefas dos mestres das chamas e travar batalhas em nome de outras pessoas que agora sabia não valer o esforço.
Entretanto nos últimos três meses todo aquele peso simplesmente sumiu de sobre as suas costas, nunca pensou que pudesse se descobrir feliz apenas pelo fato de sair de casa num domingo de manhã para ir à igreja onde Adalberto Ramos comandava um pequeno mais assíduo grupo de pessoas que segundo o pastor, eram suas ovelhas.
Alam descobrira o verdadeiro significado do dito popular que rezava que a felicidade estava nas pequenas coisas, algumas vezes ficou apenas contemplando a bela paisagem natural sentado às margens do rio Rideau durante longas horas de um domingo e meditando em quanto tempo perdera na vida. Outras vezes ele visitava os vários parques da cidade, como o Cahill, o Owl, o Emerald Woods e tantos outros; caminhava durante muito tempo refletindo e apreciando as belas paisagens.

E numa vez ele finalmente conseguiu realizar um dos sonhos que tinha desde que foi morar no Canadá, mas nunca teve tempo; assistir uma partida dos “Playoffs” da liga de hóquei no gelo, a NHL, entre o time do Ottawa Senators contra o New York Rangers na arena Scotiabank Place. Foi algo totalmente incrível, fazia dez anos que ele não participava de uma festa tão grande como aquela e naquele momento Alam S. Plínio lembrou-se de que havia no mundo muitas outras festas tão ou ainda mais empolgante do que a que estava vivendo naquele momento, como uma partida de futebol no Rio de Janeiro, no mundialmente conhecido estádio Jornalista Mário Filho, o popular Maracanã, por exemplo.
***
Naquela manhã em particular ele parou o seu novo carro, uma belíssima Mercedes C63 AMG prata, menos valiosa do que a antiga Ferrari F50, porém, ainda assim um carro de muito luxo, bom gosto, performance e agilidade; ele parou o veículo frente ao local onde Adalberto Ramos realizava as reuniões da igreja, uma casa em estilho chalé de dois andares com um jardim na lateral formando um conjunto perfeito com a grama muito bem cortada, ainda molhada pelo orvalho e uma calçada trabalhada com blocos de concreto.
A igreja ficava localizada em uma rua residencial também nas redondezas de Ottawa, em um ponto um pouco mais afastado das demais casas; possuía um formato de chalé suíço com detalhes em madeiras entalhadas e envernizadas e um grande e florido jardim de tulipas posto no lado direito do gramado. Sobre a porta grande arqueada estava uma placa que indicava a denominação a qual aquela igreja pertencia, mas Alam não estava nem um pouco preso àquilo.
Ao sair do carro ficou parado junto da calçada respirando o ar doce e frio da manhã canadense, um ar puro e extremamente refrescante, ele pensava, olhando para o gramado, o jardim e ouvindo o cântico entoado por pássaros, que sua vida não poderia melhorar, sentia aquela paz sem igual em seu íntimo e muito embora seu lado lógico atribuísse essa paz aos recentes acontecimentos de abandonar a ordem dos magos vermelhos e dedicar a vida a um estilo mais leve e pouco menos disciplinado em relação ao anterior, o lado emocional dele dizia claramente e com razão que, aquela paz era em decorrência de um único acontecimento: o seu renascimento.
Dois meses após romper definitivamente relações com a ordem Alam passou a prestar mais atenção nas coisas que lia na bíblia, verificou que na verdade muitas daquelas palavras tratavam-se de um estilo de vida bem simples de ser seguido e que não exigia nenhum sacrifício, ali havia princípios de boa convivência para com as demais pessoas e para consigo mesmo. Meditando nas coisas que aprendia diariamente ele acabou tendo um curioso desejo que aumentou nos dias que se seguiram. Lendo um trecho dos evangelhos em que um mestre dos judeus foi procurar Jesus para conversar durante a noite, Alam ficou intrigado com a resposta dada; nela Jesus disse as seguintes palavras:
“Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”;
Ao que o ancião perguntou:
 “Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode, porventura voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez?”;
Em seguida Jesus explicou que era necessário ao homem nascer da água e do Espírito, dizendo:
“Importa que você nasça de novo”.
Dois dias depois Alam e Adalberto Ramos estavam conversando às margens do Rideau, o rio que anteriormente tinha apagado suas chamas na queda da torre vermelha, inconscientemente o jovem tinha criado uma afinidade com aquele lugar, pois sua mente já considerava que desde o dia em que foi retirado das águas ele já vivia outra vida, era apenas uma questão de selar aquela certeza.
_Posso pedir uma coisa a você?_ perguntou a Adalberto.
O amigo riu já respondendo a pergunta.
_É claro.
Alam estava meio sem jeito, mas tinha de continuar, precisava saber que desde aquele dia seria finalmente uma pessoa totalmente mudada; uma nova criatura. Finalmente pediu.
_ Preciso deixar minha antiga carga para trás, uma nova vida, é isso o que eu quero. Você pode me ajudar? Por favor?
Embora Adalberto costumasse rir afetuosamente quase sempre, naquele momento ele abriu o mais iluminado sorriso que Alam já viu um homem desabrochar em sua face. Adalberto o abraçou forte e falou ao pé do ouvido:
_Aqui estão as águas, vamos até elas.
Ali naquela tarde ambos entraram nas correntezas do rio, que naquele ponto não era assim tão bravio, com as roupas que estavam e não houve cerimônia, ficaram com as águas geladas na altura da cintura e Ramos pronunciou algumas palavras antes de continuar:
_Para o despojamento do corpo do pecado, despojamento do corpo da carne, remissão dos seus pecados, sepultamento da velha criatura, circuncisão do seu coração e nascimento da nova criatura das águas para viver em novidade de vida; eu Adalberto ramos o mergulho...
Algumas pessoas que passavam pelo lugar vendo a cena no mínimo inusitada pararam para olhar, algumas entendiam o que estava ocorrendo, outras não, algumas aplaudiram, outras reclamavam, mas nada daquilo atrapalhou o ato que os dois estavam concluindo. Ramos terminou de falar e mergulhou o jovem até que as águas do rio o cobriram por completo em seguida o trouxe novamente à superfície.
_ Seja muito bem vindo_ disse Ramos_
Naquele momento Alam sabia que já poderia viver em paz consigo mesmo, com Deus, com o mundo a seu redor e sentia-se totalmente renovado, embora não vislumbrasse nenhuma mudança mental ou física aparente, mas sabia que seu espírito já não era mais o mesmo. Havia renascido.
***
Ficou parado frente ao carro lembrando desses fatos e não percebeu que as pessoas começaram a deixar a igreja, Adalberto provavelmente tinha terminado a reunião. Muitos dos que estavam ali já o conheciam e cumprimentavam-no alegremente quando passavam por ele, até que uma pessoa conhecida saiu pela grande porta da frente e olhou para o jovem Alam como se tivesse encontrado um troféu.